20/01/2023
"No passado sábado, um bom amigo convidou-me para ir ver um jogo do filho.
Estava emocionado porque o filho voltou a jogar futebol depois de uma longa lesão. Iniciou o jogo a titular e demonstrou estar completamente recuperado.
Eu também estava feliz de o ver jogar e… estar feliz…!
Mas houve uma coisa que não gostei. Toldou o meu pensamento.
A sua equipa goleava por 8-0. Eram muito superiores ao adversário.
E observava que o treinador não fazia nenhuma substituição.
Os meninos no banco com frio, muito frio, mas celebravam os golos dos colegas como se fosse a final da liga dos campeões.
Pensei eu…
Porque não fará substituições? Sabendo que o adversário é mais fraco, porque não põe a jogar todos os meninos?
Porque não f**a tranquilamente sentado no banco e ao invés festeja os golos com exuberância desmedida?
O jogo terminou 12-0. O meu amigo estava muito contente. O seu filho jogou o tempo todo.
O meu amigo disse:
-Luís, vou apresentar-te o treinador do meu filho. Diz que te conhece.
Ao mesmo tempo os jogadores da equipa iam saindo do campo. Alguns muito tristes por não terem jogado.
Entretanto, chega o treinador e diz:
-Eu conheço-o. Gosto muito do que escreve, é uma referência para mim.
Eu respondi:
-É um gosto. Muito obrigado.
Perguntou-me:
- Gostou do jogo?
Nem sabia o que lhe dizer… eu estava amargurado, mas lá fui dizendo:
-Não me foquei muito no jogo, havia uma grande diferença entre as equipas.
Tomei mais atenção a questões específ**as dentro da formação dos jovens com a idade de Benjamim.
Eu estava incomodado e perguntei: -Havendo uma diferença tão grande entre as equipas, porque razão não jogaram todos os meninos? Porque não experimentaste a colocar os jogadores noutras posições que não as habituais? Porque celebraste os golos de forma tão efusiva sem pensar nos meninos da outra equipa?
Ele respondeu:
-Queria golear. Quero ser campeão!
E continou... creio que não me entende. Eu quero ser campeão. Se um menino joga muito ou pouco não me interessa. É um problema seu. É o futebol.
Com uma calma exasperada, respondi:
-Não entendes o futebol de base como um processo formativo, não deves estar aqui.
E se costumas ler o que escrevo logo perceberias que o bonito do futebol de base é formar pessoas, formar desportistas, fazer sentir que todos são importantes, que entendem o conceito de equipa.
Ensinar-lhes a ganhar, sim, mas não a ganhar de qualquer maneira. E por fim, certamente não costumas ler o que escrevo.
E fui embora! O meu amigo não me disse nada. Talvez envergonhado.
Alguns jovens continuam a abandonar o futebol por causa de treinadores destes. Ou melhor, estes não são treinadores, são outra coisa qualquer.
É apenas uma história. Mas uma história que continua a ser verdadeira todos os fins de semana."
Professor Luís Simões
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