08/02/2018
Vinil de Quinta 🔝🤘🏽
A SAUCERFUL OF SECRETS - PINK FLOYD (EMI, 1968)
Qual o melhor disco do Pink Floyd? Difícil a resposta, pois são inúmeros clássicos. E o mais difícil? Essa resposta se aproxima do segundo e mais cósmico álbum do grupo inglês A Saucerful of Secrets (EMI, 1968), que completa 50 anos em 2018. A história (quase) todo mundo sabe: após o disco de estreia, The Piper at the Gates of Dawn, lançado no ano anterior, o quarteto foi fazer uma turnê pelos Estados Unidos e que foi um retumbante fracasso. A culpa recaiu sentenciada diretamente ao seu fundador, vocalista e guitarrista Syd Barret, que devido ao estado mental alterado (por motivos que todo mundo também já sabe) tocou e cantou muito, mas muito mal, inclusive em programas de TV. Pense que em 1967 não havia internet e assistir na televisão uma banda com um vocalista que não mexe a boca no Playback e que ficava olhando fixamente para a câmera não era algo assim “tão legal” para se ver.
Voltando para Londres era preciso gravar um segundo disco pra esquecer os acontecimentos ruins. Roger Waters (baixo/vocais), Richard Wright (teclados/vocais) e Nick Mason (bateria) chamaram um guitarrista brothers deles, lá de Cambridge (terra natal do grupo) chamado David Gilmour para que pudesse dar uma força. A intenção era que Syd fosse o compositor do grupo - semelhante ao que aconteceu com o Brian Wilson dos The Beach Boys. A reunião destes cinco elementos se deu no estúdio e o resultado foi digno de ser algo inesquecível.
Espacial e envolvente "Let There Be More Light" abre o vinil com um riff de contrabaixo e prato de condução que leva o ouvinte para outra galáxia. Composição de Waters e cantada por Wright, Gilmour e o próprio Waters, a faixa possui um tom obscuro que não preenchia a quantidade de cores do caleidoscópio tão presente no disco anterior. Aí mora a graça: seria outra banda e mais séria? Talvez. "Remember a Day", psicodélica ao extremo, porém melódica reúne um milhão de imagens nostálgicas de uma infância imaginária. Cortesia do tecladista Wright. A seguinte “Set the Controls for the Heart of the Sun” é uma canção onde todos participam e o clima soturno mais uma vez se dá presente e a única que ficou presente no repertório da banda nos anos posteriores. O lado A fecha com a primeira canção que possui temática de guerra da banda , o acid rock com guitarras saturadas "Corporal Clegg", composta por Waters. Um detalhe: um dos vocais principais é do batera Nick Mason.
O lado B abre com a longuíssima faixa titulo onde a experimentação dá o ar da graça. Barulhos, ecos e outros bichos em uma assustadora ode ao que ninguém sabe. Um solo de bateria, loops, efeitos de sons ao contrário e explosões até culminar em um órgão de igreja quase angelical. O momento certo para o respiro e os pianos de "See-Saw", outra composição nostálgica e psicodélica de Wright, algo que simulasse um carrossel de efeitos de L*D. A última faixa “Jugband Blues” é a composição de Syd que o próprio canta em um tom de despedida. “E o que exatamente é um sonho? E o que exatamente é uma piada?” em um tom melancólico sobre o violão. Um das melhores faixas do disco e do Pink Floyd em geral que fechava um ciclo.
Após as gravações, a banda sairia em uma boa turnê pela Europa e já sem Syd. O disco não foi tão bem recebido de vendas ou criticas quanto o primeiro, mas gerou confiança ao grupo, que foi aos poucos tentando se entender como unidade. O Floyd ao mesmo tempo em que criava uma sonoridade mais regular e experimental, com faixas mais longas e uma postura distante de sua fase inicial, demorou a gerar bons resultados para quem precisava se mexer com as próprias pernas. Já Barret continuava com seus delírios e com sua genialidade mais afastada do mundo (in)real gravando seu primeiro disco solo The Madcap Laughs, com ajuda dos próprios integrantes do Pink Floyd. Mas isso é outra história.
Direção e texto: Danilo Ferraz.
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