21/06/2026
SABATO: Talvez eu seja excessivamente sentimental. Mas quero que me diga se alguma vez não lhe caíram lágrimas lendo o Quixote.
BORGES: (Como se olhasse para um lugar muito distante para nós. ) Sim, especialmente nessa parte quando eles voltam para a aldeia. É tão triste. Uma vez, na Biblioteca Nacional, dei uma palestra e comentei o último capítulo do livro. Meu sobrinho Luis lia um parágrafo e eu tinha opinião. Houve um momento, especialmente quando diz: "Alonso Quijano, entre lágrimas e queixas dos que o rodeavam, deu o seu espírito, quero dizer que morreu", que me encheu de angústia. (Como se tivesse ficado imerso nessa frase, nesse instante, Borges repete: “quero dizer que morreu”. ) Quando eu era menino sentia que nessa circunstância em que seu personagem estava morrendo, Cervantes deveria ter colocado uma grande frase. Mas ele não a usa. Seu amigo morreu e simplesmente escreve "quero dizer que morreu".
SABATO: Isso é o que parece ser "escrever bem".
BORGES: Certamente Cervantes nunca percebeu que escrevia bem. Mas isso não nos interessa, nessa frase está selada a emoção do autor. Em vez disso, quando Hamlet diz The rest is silence, “O resto é silêncio”, sente-se uma íntima indiferença em Shakespeare.
[Diálogos de Borges e Sabato
Compilados por Orlando Barone
1974-1975]
SABATO: Talvez eu seja excessivamente sentimental. Mas quero que me diga se alguma vez não lhe caíram lágrimas lendo o Quixote.
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