13/03/2022
De todas as verdades supremas, pontifica uma sobre todas: a fragilidade da existência. Um segundo (ou menos) antes da morte, lá está o sujeito pensante, falante, com sua memória, seus planos, seu destino. Até que o cataclisma imbecil lhe suga abrupta e inexplicavelmente (não existem explicações para a sua morte) do aqui e agora eterno em que ele até então (quer dizer, até aquele milésimo de segundo) vivia alegremente (ou mesmo tristemente). E haverá quem diga: como assim, morreu, falei com ele ontem... Assim como os homens (e as mulheres e todos os outros gêneros conhecidos ou por conhecer) são igualmente as sociedades, os povos, as comunidades (e todas as outras formas conhecidas – ou por conhecer - de convivência humana) submetidas ao princípio inexorável da fragilidade da existência. Onde havia uma sociedade ontem, não haverá necessariamente amanhã (que o digam as tantas nações ameríndias dizimadas).
A peste que se abateu sobre nossa geração não será jamais esquecida, como não o foram a peste negra e a gripe espanhola (ou todas as outras formas de doenças epidêmicas na nossa sociedade, como o genocídio dos indígenas, mulheres e jovens negros). Inesquecíveis as fossas abertas à espera dos mortos que fatalmente viriam; inesquecíveis os frigoríficos a guardar as carnes humanas depositadas aos milhares; inesquecíveis os embates entre a ciência e a mentira (época em que, como disse Camus, dizer que dois e dois são quatro nos condenaria à morte); inesquecíveis a desfaçatez, a irresponsabilidade e a crueldade mórbida do Poder que, por uma ironia malsã e diabólica, traz o nome de messias. Este livro é para não esquecer. É um livro de lembrança!
Porém, com tudo isso, eis que vemos renascer a vida, sobrevivida, entre escombros de famílias, de povos, de comunidades (e de todas as outras formas possíveis e conhecidas de convivência humana). Foram heróis os pequenos, os anônimos, os generosos, os que se doaram (e que muitas vezes, doaram suas vidas) em holocausto para a redenção da Vida, que ora se reaviva. Vida que segue, diz a sabença popular. Temos ainda viva a flor da vida por desabrochar. Já disse o grande Nietzsche: o que não mata, fortalece. Este é um livro de esperança