14/07/2018
Curta: Escrita Escriturística
Eu não creio que a inserção deste relato, copiado de um esboço que tenho em mãos, desvie o livro de seu propósito principal. Seu autor, um pastor, ainda está vivo e exercendo seu ministério. Aqui temos um pequeno relato de uma de suas tristes experiências. Ele permitiu que eu copiasse suas palavras escritas a mão – não previamente organizadas para publicação – como carta para um amigo. Visto que o autor explica de que modo saiu das águas sombrias e turvas do desespero, ela pode servir de ajuda para alguns – assim como tem servido ao amigo dele. O desespero se opõe à fé, e todo pecador nesta terra tem o direito de, em fé, opor-se ao desespero.
A seguir, reproduzo um trecho da carta:
“Meu caro amigo,
Você me diz que estou sempre alegre, mas você sabe pouco a meu respeito. Não costumo descontar minhas aflições nas pessoas, pois não quero que sintam pena de mim, algo que seria inútil. Além disso, tenho aprendido dolorosamente que algumas aflições estão completamente fora da compreensão humana, das quais ninguém conseguiria compadecer-se. Eu passo por temporadas (não raras) em que minha alma é esmagada dentro de mim, e por isso acredito conseguir me compadecer de todo e qualquer sofrimento, mesmo dos mais sombrios. [...]
Não se passou nem um ano desde que me via envolvido nos mais terríveis horrores das trevas. Eu tinha esperanças de que momentos como aquele nunca mais voltariam, mas eles vieram mais uma vez. Disseram-me que problemas de saúde ou, melhor, o nervosismo em qualquer estado de saúde ocasionam boa parte dos sentimentos depressivos. Durante o período ao qual me refiro nesta carta, eu estava plenamente consciente das complicações neurológicas, o que me fez refletir a respeito de suas influências sobre meu estado. No entanto, isso em nada me ajudou a ser liberto de minhas aflições. Dia após dia, as trevas se arraigavam em minha alma, de modo cada vez mais profundo. Eu não conseguia enxergar nenhum tipo de luz! Eu não era um cristão! A bíblia era um livro fechado e selado para mim; Cristo não era real e a salvação parecia um sonho. Orar não passava de um deboche, não era melhor que uma mentira. Eu sentia que não acreditava no que meus lábios diziam quando clamavam a Deus. Eu não acreditava em Deus. Eu era um incrédulo coberto das mais densas trevas. Eu não conseguia ter consciência de nada a não ser de minha própria miséria – e no mais profundo dela, eu amaldiçoei o dia em que nasci. Diversas vezes, incessantemente, eu desejei nunca ter nascido, ou haver morrido ao vir à luz. Diversas vezes desejei ser nada mais que um cachorro, um cavalo, uma pedra – ser qualquer coisa, exceto eu mesmo. [...]
Não existem palavras que consigam descrever os horrores que sofri; eles eram de todo tipo. Eu posso descrever apenas algumas sugestões: pensamentos blasfemos – não me é lícito reproduzir nenhum deles –, tentações que eu não posso nem sequer nomear – coisas que fariam você estremecer; ah, elas me fizeram pensar que nem o próprio inferno seria pior, e eram arremessadas em minha mente de maneira incontrolável! As tentações se divertiam com minha pobre alma; esta não tinha forças, nem uma sequer, contra as terríveis maldições. Ela foi sacudida como uma folha perante a tempestade – desamparada, sem esperança. Por vezes, me sobrevinha alguma claridade sobre minha mente, como aquele feixe de luz que atinge o fundo de um poço; eu pensava isso porque não conseguia explicá-los de outro lugar, senão da mais profunda cova. Era como se Satanás falasse comigo, zombasse de mim, me escarnecesse, e triunfasse sobre minha alma com toda sua malignidade. – ‘Onde está seu Deus agora? O que você acha de orar agora?’: isso vinha de modo tão súbito e vívido, tão involuntariamente, era-me tão inacreditável que eu não conseguia acreditar que fosse produto de minha mente. Havia de ser que Deus permitira Satanás me esbofetear e descontar em mim toda sua malignidade, mostrando-me um pouco de como é o inferno.
Em agonia, eu costumava a rolar pelo chão do escritório, durante horas, em desespero, pensando em como seria um pecado, uma vergonha, algo impossível para mim preparar outro sermão. Eu sabia que não servia para pregar. Acreditava estar apenas atuando em uma peça, bancando o hipócrita deliberadamente. Eu teria renunciado o ministério, pudesse eu. Mas o que eu poderia fazer? Eu havia sido feito para isso. E depois de protelar enquanto pude, mal tendo tempo para me preparar para o Dia do Senhor, como de costume peguei meus textos e comecei a preparar o sermão, sentindo que eu era o ser mais miserável e inútil deste lado da cova, e que logo eu estaria no mais profundo poço. Focado em meu sermão, eu me esquecia de mim mesmo e, desde que meus pensamentos estavam ocupados com a verdade de Deus, assim f**aria atento ao estudo e permaneceria bem até o final do domingo. Eu iria pregar como um apóstolo, e voltar para casa feito em completo desespero! Tentei de tudo, e nada me trouxe alívio.
Dirigi-me a um respeitado pastor, e lhe contei minha situação. Ele foi bastante amável comigo, e me disse palavras muito sábias. Mas, então, ele passou a dizer que Deus estava me disciplinando para me usar ainda mais. Então eu lhe disse “Meu senhor, pare de dizer isso. Não, eu não posso aceitar isso, eu não posso! Isso não me diz respeito. Eu já pensei nisso, mas minha consciência rejeitou como uma tentação do diabo, dizendo para que eu continuasse em meus pecados”. Eu lhe disse que era mais do que aquilo. Eu temia – e tinha fortes motivos para temer – nunca ter tido, afinal, qualquer tipo de religião; eu não poderia viver daquele jeito, e muito menos morrer. Disse-lhe também que eu conseguia confortar outras pessoas e libertá-las de aflições parecidas com a minha – eu as confortava, eu era bom nisso, e mesmo que não pudesse fazer mais nada por elas, eu conseguia libertá-las do desespero, sem saberem como eu podia fazer aquilo. Contudo, eu não podia me confortar – minha situação era diferente, eu não conseguia experimentar as mesmas verdades que eu mesmo tanto pregava. As exortações e promessas que as confortavam não podiam me confortar. Frequentemente, disse eu, me via como aquele homem atormentado que, em desespero, tomou conselhos de um amigo (um ministro, talvez), ao que este lhe disse: ‘distraia um pouco sua mente, pratique algum esporte, divirta-se, vá ver a peça interpretada por Carlini’ (famoso palhaço que, à época, atraía multidões). No que esse homem, desesperado, respondeu: ‘Ai! de mim, meu senhor, pois eu sou Carlini!’. E o mesmo acontecia comigo. Assim, voltei para casa em completo desespero, chorando ao longo de minha jornada.
Enquanto eu permanecia nesse estado – perplexo, agitado, atormentado dia e noite, temendo e quase certo que me tornaria um maníaco –, tive a oportunidade de acompanhar uma mulher que seria internada num hospício. Ela iria comigo, pois seus amigos não a suportavam. Enquanto dirigia a carroça em direção ao hospício, passei a conversar com ela. E senti como se eu mesmo devesse ser internado, e não ela! No caminho de volta, após deixá-la lá, eu olhava para o chão, para as árvores, para o céu, e era como se não conhecesse nada, duvidasse de tudo. Parei para pensar em mim – meu tormento estava se tornando insuportável. Era difícil conter gritos de agonia e desespero. Voltei para a charrete a fim de ir para casa. O rapaz que me acompanhava tentou conversar comigo, mas não consegui respondê-lo satisfatoriamente. Vendo que minhas respostas eram, como presumo, sem sentido ou que eu nada respondia, ele me olhou perplexo e, sentindo pena, deixou-me só.
Nós continuamos a viagem. Eu não conseguia ter consciência de nada, crer em nada. Eu não acreditava que houvesse um Deus! Eu sentia estar afundando no mais profundo desespero! Eu era como alguém desamparado, sem esperança, condenado eternamente! Um miserável depravado demais para viver e inútil demais para morrer!
De pensamento em pensamento, minha mente passou a raciocinar e questionar. Eu existo – certo. Aquela é uma árvore, aquele outro é um rio, lá está o sol – tudo isso é verdade. Mas de onde eles vieram? Eles não se criaram, eu não me criei a mim mesmo. Temos, com isso, uma dependência. Eles não se controlam. Há uma ordem por trás de tudo isso. O sol se põe no local e na hora exatos. Existe um Deus! Sim, existe um Deus! Esse foi o primeiro feixe de luz. Eu me agarrei a esta verdade – Existe um Deus! Existe um Deus! Existe um Deus! –, e continuei pensando nisso. Senti como se houvesse obtido uma certeza, e eu não a deixaria ir embora. Eu conseguia crer em uma coisa.
Em um instante, desde que essas ideias resplandeceram em minha mente como relâmpagos, eu me agarrei a outro pensamento, outra certeza, e então conectei ambas as certezas e vi que isso era ordem – domínio. Deus exerce domínio. Sim, Ele comanda. Eu disse ‘Deus reina!’. Isso me foi um oceano de luz! Ele criou o universo! Deus reina! Deus reina! Deus reina! Eu continuei repetindo em pensamento “Deus reina! Deus reina!”. Foi uma vitória para mim. Foi glorioso. Eu quase saltei da carruagem, e comecei a gemer de alegria e regozijo. O rapaz começou a olhar para mim, mas eu nem o notei. Eu apenas me agarrei à verdade ‘Deus reina! Deus reina! Deus reina!’. Não ousaria deixá-la ir embora. ‘Deus reina!’ – eu não ousaria deixar nada mais entrar em minha mente. ‘Deus reina! Deus reina! Deus reina!’ – disse minha alma, exultante.
Em seguida, algo começou a se debater dentro de mim – era como se milhares de espadas estivessem em guerra. Eu senti o total poder da verdade que estava em minha mente, e não desejava nada além de mantê-la lá. Mas as investidas e os ataques contra ela eram como os impactos e estrondos da guerra! Um pensamento após outro, todos atacavam minha alma – eram como ondas cujas forças queriam me afastar da Rocha.
‘Você não passa de um pecador condenado, ma***to e miserável!’ – ‘Deus reina!’, exclamou minha alma. ‘Hipócrita!’ – ‘Deus reina!’, exclamou minha alma. ‘Tolo!’ – ‘Deus reina!’; ‘Louco!’ – ‘Deus reina!’; ‘Você é um maluco, pois nunca ninguém pensou como você!’ – ‘Deus reina!’; ‘Tenho certeza que você sabe disso’ – ‘Deus reina!’; ‘Ai de você, se Ele reinar!’ – ‘Deus reina!’; ‘O que você sabe sobre Deus?’ – ‘Deus reina!’; ‘Você é um incrédulo!, um infiel!, um apóstata!’ – ‘Deus reina!’; ‘Deus já abandonou você! – ‘Deus reina sobre mim!’; ‘Você está possesso pelo diabo!’ – ‘Deus reina!’, exclamou minha alma, exultante.
Assim, uma tentação após a outra se lançavam sobre mim, e tudo que eu conseguia fazer era agarrar-me a minha rocha – ‘Deus reina!’. Em um momento, eu temia como se um dos ataques houvesse me ferido; em outro, eu já triunfava, como se a investida fosse lançada para longe pelo poder de uma certeza que eu tinha. Eu estava afundando em meio às ondas tenebrosas que se levantavam contra mim. Mas, dentro de um instante, eu reinava sobre elas – eu as governava, e poderia ter governado milhares de oceanos delas, porque ‘Deus reina!’. Eu usei essa verdade como um escudo contra cada investida maligna, cada ataque de incredulidade, cada “dardo inflamado” que Satanás lançava contra mim. Eu o segurei e resisti ao desespero e ao diabo. Havia inimigos por todos os lados, e eu me defendi de cada um deles – de cada adversário, de cada medo, de cada dúvida, pois ‘Deus reina!’, e eu não desejava saber nada além disso.
Cheguei em casa me agarrando a essas duas palavras, e minha pobre alma – agora firme, calma, na mais perfeita paz, feliz – não queria pensar em nada, saber nada, importar-se com nada, pois ‘Deus reina!’ e isso bastava.
Aos poucos fui me agarrando a outras verdades e as aplicando e as usando – em fé, assim espero. No entanto, durante vários dias eu não precisava de mais nada para preencher minha alma com gozo e alegria que esta gloriosa verdade ‘Deus reina sobre mim! Deus reina!’. Estas palavras me salvaram da mais completa loucura.
Isso foi apenas uma descrição bastante efêmera de uma dos meus momentos mais sombrios, e ela lhe dará somente uma noção de como se parecem. Não existem palavras que possam descrevê-las, e a imaginação humana não conseguiria imaginar seus horrores. (A única vantagem de experimentar o desespero é ver como a imaginação é débil ao tentar concebê-lo.)
Eu não gostaria que tempos como aqueles retornassem. Realmente, talvez eles tenham sido úteis de alguma forma, bem como meu amigo muito sábio me disse. Contudo, não gostei de ser disciplinado dessa maneira. Não desejo aprender o poder da fé através das labaredas do inferno.
Não consigo me recordar daqueles dias tenebrosos sem ser dominado por fortes emoções. Eu gostaria de esquecê-los, mas eles estão cauterizados, indeléveis em minha memória. Nem mesmo escrever esta carta sem chorar eu consegui. Deus permita que você não consiga ou possa me entender, nem agora nem nunca. Mas se algum dia você vier a experimentar tais sofrimentos, eu conheço uma só maneira para livrar-se deles: FÉ, FÉ, FÉ. Você não deve tentar se livrar, mas precisa deixar que Deus o liberte. Você não pode se ajudar, assim como não poderia opor-se às ondas do oceano ou aos raios e trovões dos céus. Você precisa deixar que Deus o abrigue na fenda da rocha, que Ele o cubra com Sua poderosa mão. Você deve exercitar uma fé passiva – o que é bem mais difícil que ter uma ativa. Pelo menos eu não encontrei outra maneira a não ser essa. Argumentar com esse tipo de sentimentos? Tente argumentar com um furacão, com uma tempestade, com o oceano em fúria! Você não pode argumentar com isso. Eles irão agarrá-lo e esmagá-lo como o verme mais fraco do universo. Olhe – não faça nada, apenas olhe: Deus reina! Jesus Cristo é o Rei dos reis! Entregue TUDO a ELE – isso é fé.”
Este relato contém uma doutrina gloriosa, à qual eu me agarro durante meus sofrimentos. Esta é uma grandiosa verdade, “Deus reina” e, assim, “a graça reina pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo nosso Senhor”. Por isso, nenhum pecador desta terra jamais precisará se desesperar.
Tradução: Cesare Turazzi