17/08/2022
Um texto inebriante, contravencional, buscológico e soltando mazelas na atmosfera poluída de um Zilzão, destituído de sensibilidade: fui no bar do Joaninho Kargasd’água, bisbilhoteiro mor de um dos coronéis da cidade, Elviro Freskoball. Ele usava um penacho de ante-penúltimo dos moicanos na cabeça e uma camiseta da antiga RFFSA, quando os trens foram abolidos do Zilzão para a venda de automóveis e caminhões gringalhudões. Ele me confidenciou que nosso amigo em comum, Kroket Pinto estava organizando uma excursão para o centro da terra, aquele mesmo centro do Rick Wakemanion. Ele iria junto e estava me convidando, mediante o pagamento da minha passagem, determinada pelo próprio Kroket. Poliglota James, que “manja” 250 línguas, dialetos e gírias superlativas seria o convidado especial, que traduziria as palavras e os ensinamentos do magão que iríamos encontrar no centro da terra, nada mais nada menos que o verdadeiro Papai Noelzão, que há mais de trinta anos passou seu “papel de presenteiro” para o seu irmão mais novo, Papai Noelzinho. Juntos na viagem iriam, Dagoberto 3palavras, que não daria um “pio”, Nathanael Comanche, quinto reserva de lateral-direito de um dos times da nossa capital, além de Fredo Piska, herdeiro direto do potreiro do General Elétrico, ali adiante, perto do entre-posto do postão do “Aleluia Bar”. Kroket determinou que minha passagem seria R$500,00 e a coleção de figurinhas dos jogadores da copa do mundo de futebol, de 1970. Coleção esta de posse de Madame Butterfly e que iria junto. Eu deveria convencê-la a doar “pró Pinto”. Ele marcou a “viagem” para um ponto cego, um bueiro na Avenida Mauricião Cardosão, próximo de um número residencial que não posso revelar. Coloquei minha bandana do “Chaveiro Tales”, minhas botas de borracha, a velha calça jeans, camiseta da Jam e um colete à prova de balas que tive que comprar do Pinto. Como ele orientou, levei os patins da minha filha Marina. No local, a “Caravana ao Centro da Terra” se encontrou. Kroket levantou duas lajes e la estava um túnel escuro e frio, no qual a primeira corajosa a deslizar foi Madame Buttefly, apesar das cinco trocas de s**o já feitas por ela. Os outros a seguiram, alguns de skate, outros, como eu, com patins. Mais de três horas deslizando por aquele túnel, onde víamos no início fotos dos presidentes do Zilzão, fotos dos treinadores da nossa seleção zileira, dados do nosso PIB desde o ano de 1501, as respostas para futuros vestibulares, até chegarmos numa espécie de limbo, onde aterrissamos, nos embolando. Encostei na Butterfly e ela batendo seu queixão de pavor, disse: “me ajuda a sair daqui que a coleção de figurinhas é do Pinto, Kroket”. Nisso Pinto salta e ereto com seu esqueletão grita: “sinsalabin-ladentresovoscomsalsichãoe repolho, aparece Papai Noelzão”! E em seguida Noelzão surge em 3D, trajado de coelhinho da páscoa com um penacho, e: “passa a grana Pinto e faça a pegunta que tu tens direito, vivente gaúcho”. Pintão desembolça a grana e aos prantos, tremendo e gemendo, lascou o que havíamos desejado saber! E eu não sabia e não havia perguntado, porque estávamos ali! Kroket Pinto, em posição de sentido e batendo continência lascou para o Noelzão: “por favor Zão, qual o sentido da vida”? E Zão rindo disse: “isso que voces me deram, dinheiro, grana, dólares, ouro. Era só perguntar para qualquer gr**go, koronel, seus kapitais e seus korinhos e ou facilitadores. Quanto a volta de voces, tem uma escada ali que dá no bueiro do Cardosão ou tenho umas renas elétricas, que por preços moderados deixam vocês lá”. Em 16 horas, subindo as escadas, chegamos no bueirão do Cardosão sãos, salvos e com a resposta. Fiz este este texto ouvindo só “Long ago tomorrow”, com B.J. Thomas, que em 1970 havia ouvido pela primeira vez no fim de um filme gr**go ruim, quando passavam os créditos. Levei uns cinco anos para consegui-la em vinil e posso escutá-la, a qualquer momento que me faz um bem tremendo. Abração prá vocês, amigos e se cuidem dos túneis do Cardosão, o Mauricião. (Luiz Carlos Peretto – 17/08/2022).