29/04/2024
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A SAUDADE – Gilbert Chaudanne
A saudade corresponde a algo que faz falta. É uma falta, só que não é uma falta “seca”, ela se coloca na caixinha do sentimentalismo, mas se tem falta de algo ou de alguém que já se conhecia.
Ela não é como o “spleen” inglês, ou a “sehnsucht” alemã. Estes não têm causa, enquanto a saudade tem. Se tem saudade de...
Não se tem saudade. Há de ter sempre uma causa.
Curiosamente, os portugueses foram grandes navegadores, pois isso devia provocar nos marinheiros, assim como uma saudade de Portugal. Talvez foi uma das causas das grandes descobertas, os portugueses viajavam longe para ter saudade de Portugal! Eles se descobrem portugueses viajando para países estrangeiros. Mas se a saudade tem um lado romântico, o descobridor de terras novas era também alguém que tem os pés na terra. Estão à procura de riqueza material: ouro, diamante e, para isso, não usam o crucifixo, mas a espada.
Na verdade, o crucifixo participa da colonização. Na mentalidade dos portugueses estamos, em parte, na idade média. E os coitados dos indígenas são vistos como animais a serem batizados.
A saudade não é metafísica (como a “sehnsucht” alemã), esta é vertical e a saudade é horizontal.
Mas o misticismo existe: é a terra sem males, e o Eldorado. Quer dizer, reminiscência do paraíso terrestre. E esse paraíso terrestre, perversamente, se chama trabalho escravo, senzala e minas, ouro e pedras preciosas.
Os portugueses cristãos, devotos, se conduzem como verdadeiros carrascos com os negros escravizados. E são esses mesmos negros que construíram as igrejas e tornaram-se artistas: o caso de Aleijadinho desafia a razão dos historiadores e mostra que o negro é uma raça forte e capaz de superar os senhores.
O incrível é que um país pequeno como Portugal constitua num império mundial. Brasil, África, Ásia. No século XVI era uma das principais potências como os espanhóis. Mas todos os impérios são mortais e o português não fugiu das regras. Entretanto, para entender o Brasil tem que passar por Portugal. Mas agora é o contrário. São os brasileiros que vão para Portugal, o que mostra que a relação Portugal/Brasil não é unilateral e há, entre eles, um verdadeiro parentesco.
Ilustração: Saudade (Almeida Junior)