19/06/2026
ESCUTOU AGORA, IVO ?!!!!
Mudei-me para Mato Grosso no final da década de 1980; Trouxe de bagagem a mulher, a mala e um ventilador. Três anos depois meus pais mudaram-se também.
Motivados por minha mãe, apaixonada pelo cultivo de hortaliças, traziam na mala sementes e mudas de diversas plantas que pretendiam vê-las produzir no Mato Grosso. Sementes de quiabo, abóbora, mudas de bananeiras e entre elas algumas mudas de cebolinha.
Com uma mala velha, a única que possuíam, esgarçada, com barbante de estopa amarrada partiram de Loanda, noroeste do Paraná em ônibus da Viação Umuarama, hoje extinta, que fazia a linha Paranavaí (PR) até Naviraí (MS); Eram dois modelos, o OCP (ônibus caindo pedaços) nos dias de semana, e aos finais de semana e feriados havia um modelo mais moderno, o VMV (veículo muito velho), cujas passagens eram então mais caras. Não me recordo em que modelo eles viajaram, mas o fato é que acomodaram a mala no porta volumes que f**a acima do assento dos passageiros, que mal acomodou-se, pois devido a largura e ao estufamento proporcionado pelo conteúdo, boa parte dela ficou de fora do compartimento.
Após atravessarem o Rio Paraná, de balsa, embrenharam-se por uma estrada cabriteira, ou boiadeira, sei lá... repleta de sacolejos, solavancos e “esfria-saco”. Com a trepidação provocada pelo estado da rodovia a mala deslizava para fora do compartimento ameaçando cair. Minha mãe recostada na janela dizia ao meu pai, sentado ao lado na poltrona do corredor: “__Ivo, essa mala vai cair...”. E meu pai calmamente levantava a mão direita e com leve toque empurrava a mala, ou o que cabia dela, de volta ao compartimento. Essa cena repetiu-se por diversas vezes. Do nada, minha mãe olhava pra cima, via a situação da mala e dizia ao meu pai: “__ Ivo, essa mala vai cair...” E meu pai repetia o gesto colocando-a no lugar.
A certa altura da viagem, meu pai, já cansado pelos alertas de minha mãe, após uma nova advertida retrucou com um respostão: “__ Quando cair eu escuto!!”. Minha mãe calou-se e não mais deu alerta.
Em uma destas curvas da estrada em que a força da física, chamada inércia, que se caracteriza pela teimosia de um corpo físico em movimento no espaço, insistir em manter sua trajetória, quando cessada a força de movimento que o conduz ou quando sua direção é alterada bruscamente, meu pai quase cochilando, e sem os alertas continuados de minha mãe, esqueceu-se da mala, e esta desencaixando-se do compartimento estatelou-se ao chão, rompendo a amarra e esparramando seu conteúdo ao longo de todo o corredor indo da traseira do ônibus, aos pés do motorista.
Foram quiabos secos, sementes de abóboras, olho de bananeira e entre elas claro as mudas de cebolinha, por toda parte, inclusive por sob os pés dos demais passageiros que assistiam atônitos a cena sem saber se riam ou se xingavam.
Eis então, que minha mãe muda o tom do alerta e diz quase aos berros ao meu pai: “__Escutou agora, Ivo !!!???”. E meu pai sem responder, engoliu em seco, arrebitou as ancas e saiu catando, tentando recuperar o conteúdo da mala, que uma vez refeita foi acomodada sob o assento da poltrona e seguiu até Cuiabá.
As mudas, ou o que restaram delas, produziram em Cuiabá, e nos enchiam de orgulho quando as utilizávamos. Minhas irmãs diziam: “__Gostou da cebolinha? Foi minha mãe que trouxe do Paraná.”
Ainda bem que nas viagens que sucederam eles não tenham decidido trazer ovos.
(Carlos Corso, Cuiabá, Abril 2022)