01/03/2016
Uma crônica para o fim de tarde!
DIÁRIO DE UM HIPOCONDRÍACO
(Texto integrante da obra "O Homem que Contraiu Crônica". Autor :Leonardo Gomes. Este texto e outras 17 histórias no ebook disponível no site www.lojadavinci.com.br)
Querido Diário, hoje, como sempre, eu acordei indisposto.
O dia, que prometia ser apenas mais um dia (ou menos
um) da minha triste vida sofrida, se revelou maravilhoso
ao anoitecer. Tudo porque descobri mais uma doença. Não
em mim, é claro, pelo contrário, tomei conhecimento de que
não a tinha e por isso a descoberta foi fantástica.Vou contar com todos os detalhes como foi este dia tão especial.
Após uma noite mal dormida, consequência
de uma insônia incurável, me levantei e fui até o banheiro.
Depois de urinar com dificuldade e suportar uma dor incalculável,
resultante da subtração dos cálculos renais, resolvi
voltar para a cama, pois o reumatismo não me permite ficar
de pé por muito tempo.
Uma vez na cama, tomei rapidamente o meu café da
manhã e voltei a me deitar. Permanecer sentado, definitivamente,não era o melhor a se fazer, tendo em vista a total sensação de desconforto que aquela posição me causava.
As minhas hemorroidas que o digam.
A título de curiosidade meu café da manha é composto
por uma dieta muito especial. No cardápio nada de
doces ou frituras, pois tenho diabete e colesterol alto. Além
de frutas e aveia, meu café é composto por, aproximadamente,
uma dúzia de comprimidos diferentes entre: vitaminas,
calmantes, anti-inflamatórios, anti-alérgicos e antibióticos.
A responsável por preparar todo este “coquetel” é
minha nova enfermeira, a Socorro. Ter uma enfermeira à disposição 24 horas por dia é essencial para um homem como
eu, que já acumula um marca-passo, quatro pontes de safena,
e seis infartos do miocárdio. Socorro é uma excelente
enfermeira, além de ser uma jovem muito bonita e gostosa.
Ah se eu não fosse impotente... O único problema é o nome dela. Tá certo que minha saúde não está lá estas
coisas, mas ficar gritando por “Socorro” a toda hora é muito
constrangedor.
Infelizmente, Socorro é a única companhia que tenho.
Nunca me casei, afinal, que mulher vai querer um “pé-na-cova”
como eu. Cães e gatos, nem pensar. Sou totalmente
alérgico à pelos de animais, assim como também à poeira,
ácaros, picadas de insetos, jornais velhos, temperos fortes,
frutos do mar, geleia de framboesa e, como é que é mesmo
o nome daquelas frutinhas miúdas? Ah esqueci...
Mas quer saber de uma coisa, eu já estou acostumado
à essas privações. Primeiro tive que parar de fumar. Tudo
começou por causa de um resfriado, que virou pneumonia,
que se transformou em tuberculose. Conclusão: adeus aos
pulmões. E pensar que o causador disso tudo foi um sorvete...
Depois fui obrigado a deixar a cerveja, quando esta
dilacerou o meu fígado e me presenteou com uma cirrose
hepática. Assistir a jogos da seleção brasileira de futebol então
nem pensar, pois, como já disse, meu coração já tá meio
sem cor e sem ação. Mas pra mim o mais emocionante foi
quando tive que... Opa! Me desculpe querido diário, me empolguei.
Voltemos ao meu maravilhoso dia.
Após o almoço (sopa de legumes, para variar) fiquei
extremamente sonolento, culpa da hipotensão arterial -
pressão baixa para os leigos. Incrivelmente, possuía tanto
pressão baixa quanto alta - a hipertensão - o que me deixava
deprimido e estressado ao mesmo tempo. Toda essa
“tensão” me deu nos nervos, literalmente. Fui atacado por
uma nevralgia aguda que me deixou com uma enxaqueca
dos diabos. Se não bastasse tudo isso, ainda tive que enfrentar
uma tremenda dor de barriga decorrente de um pepino,
da sopa, que não me caiu muito bem.
Ao cair da tarde estava tão mal, mas tão mal, que as
dores já tomavam conta de todo o meu corpo, indo desde
a unha encravada do dedão do pé esquerdo, até ao último
fio de cabelo da minha cabeça ligeiramente tomada
pela calvície. Minha enfermeira, desesperada, chamou o
médico. Este, após me examinar de cima a baixo, chegou
à conclusão que eu estava perfeitamente saudável. No entanto,
sei como funciona essas coisas. O médico sempre dá
o diagnóstico verdadeiro para um parente ou responsável,
nunca para o paciente.
Quando o doutor e a enfermeira deixaram o quarto,
coloquei o ouvido junto a porta na tentativa de escutar o
que eles iriam conversar. De todos os meus sentidos, a audição
é o que melhor funciona, apesar dos eventuais zumbidos.
Minha visão já não é mais a mesma. Coitada! Já está
prejudicada pelas cataratas, não as do Iguaçu, as dos olhos
mesmo. O olfato já não me cheirava bem, culpa da sinusite.
A dormência nas mãos levou completamente embora o
meu tato. E o paladar, esse já perdeu toda sua sensibilidade,
decorrente da...da... De novo essa falta de memória!
Enfim, ao escutar o diálogo que se travou na sala de
estar, pude tirar minhas conclusões.
O médico falou de uma tal de hipocondria, doença
caracterizada pela preocupação exagerada que uma pessoa
tem com a própria saúde, ou seja, mania de doença.
Ao ouvir isso fiquei muito feliz, pois tive a certeza de que não
falavam de mim. Afinal de contas, essa, definitivamente, é
única doença que eu não tenho.