29/10/2024
Segunda Estória: A Vingança do Espelho
Tudo começou com um espelho. Um simples espelho, largo e elegantemente enquadrado, que Sofia encontrou num pequeno antiquário, escondido numa rua secundária de Lisboa. O espelho chamara-lhe a atenção instantaneamente, com a sua moldura de madeira talhada à mão, adornada com arabescos intrincados. Sem pensar duas vezes, Sofia decidiu comprá-lo e levá-lo para o seu pequeno apartamento nos Anjos, sem saber que aquele objeto mudaria a sua vida de maneiras inimagináveis.
Sofia, uma jovem designer gráfica, estava constantemente em busca de inspiração e pequenos tesouros para decorar o seu apartamento. Naquele dia, tudo parecia correr bem. O trânsito estava mais leve do que o habitual e a senhora do antiquário até ofereceu um desconto generoso. No momento em que o espelho foi instalado por cima da lareira, Sofia sentiu uma onda inexplicável de satisfação.
Mas, durante a noite, algo estranho aconteceu. Sofia acordou com um estrondo. Ao investigar, encontrou o espelho intacto, mas com uma leve fissura na moldura. "Deve ter sido o vento a fechar alguma porta", pensou, voltando para a cama. Contudo, os eventos estranhos começaram a multiplicar-se.
Na manhã seguinte, enquanto se arranjava para o trabalho, notou algo peculiar no espelho. A sua imagem refletida parecia normal, mas ao encará-lo de perto, ela viu um pequeno brilho vermelho nos seus olhos, como se estivessem iluminados por uma luz oculta. Tentou afastar a sensação de mal-estar, convencendo-se de que estava apenas a imaginar coisas.
As noites seguintes revelaram-se ainda mais perturbadoras. Quando o antigo relógio de parede marcava meia-noite, o ambiente mudava. O espelho emitia um som sibilante, quase inaudível, mas inconfundível. Figuras sombrias surgiam na superfície do vidro, dançando e retorcendo-se, parecendo gritar em silêncio. Sofia tentou ignorar os acontecimentos, acreditando que o stress do trabalho e a falta de sono estavam a pregar-lhe partidas.
Uma noite, porém, tudo mudou. Sofia foi despertada por um frio arrepiante. A casa inteira estava gelada e o espelho parecia emitir uma luz prateada e fantasmagórica. Ao aproximar-se com cautela, quase hipnotizada, viu a figura de uma mulher trajada em vestes antigas, com um olhar de puro desespero. A imagem estava tão vívida que Sofia quase acreditou que podia tocar nela.
De repente, a figura no espelho começou a mover-se, não de forma harmoniosa, mas abruptamente, como se tentasse escapar de uma prisão invisível. Então, tudo ficou escuro e a casa parecia pulsar com uma energia maligna. Sofia caiu de joelhos, chorando e implorando para que os horrores parassem.
Na manhã seguinte, depois de uma noite apavorante, Sofia decidiu que já era demais. Contactou Luís, um amigo antiquário e entusiasta do paranormal, que veio rapidamente ao seu auxílio. Luis, ao ver o espelho, arregalou os olhos e contou-lhe uma história há muito esquecida.
O espelho pertencera a uma mulher chamada Amália, acusada injustamente de bruxaria no século XVII. Amália foi aprisionada e torturada, mas antes de ser executada, lançou uma maldição sobre os responsáveis, jurando vingança do além. Segundo a lenda, a sua alma ficou presa no espelho, procurando libertação e justiça.
Determinados a libertar a alma atormentada, Sofia e Luís realizaram um ritual antigo que Luís conhecia. Com velas, sal e cânticos, tentaram apaziguar o espírito de Amália. Durante o ritual, o espelho estremeceu violentamente e a sala encheu-se de um vento gélido. De repente, uma silhueta brilhante emergiu do espelho, olhando Sofia com gratidão antes de se dissipar no ar.
Após o ritual, o espelho voltou ao seu estado natural, sem fissuras ou sombras. Sofia, embora ainda tremendo, sentiu uma paz interior pela primeira vez em semanas. O espelho foi cuidadosamente guardado e doado a um museu de artefactos sobrenaturais, para que a sua história e a alma de Amália fossem finalmente respeitadas.
Com a experiência, Sofia aprendeu que alguns objetos carregam mais do que apenas memórias — alguns carregam vidas interrompidas e histórias de injustiça. Nos meses seguintes, ela passou a abordar o seu trabalho e a vida com uma nova perspectiva, valorizando a história e o legado que cada peça pode transportar. Aquilo que começou como uma simples aquisição revelou-se uma lição profunda sobre compaixão e o peso do passado.
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