14/05/2026
Um brasão houve que escapou à sanha dos franceses – o que está no alto da fachada da igreja da Santa Casa da Misericórdia do Porto, na rua das Flores.
Na primeira invasão francesa (1807 – 1808), enquanto Junot ocupava Lisboa, a guarda da cidade do Porto foi confiada, pelos franceses, a tropas espanholas.
Por ordem do imperador dos franceses, as bandeiras portuguesas e outros símbolos, como galhardetes e auriflamas, foram queimadas ou destruídas.
Os brasões que ostentavam as armas da coroa foram mandados apear dos sítios onde estavam e picados.
Até as pedras de armas de titulares foram picadas.
Alguns fidalgos para evitar a destruição dos seus símbolos de nobreza, mandaram – nos cobrir de cal.
Um brasão houve que escapou à sanha dos franceses – o que está no alto da fachada da igreja da Santa Casa da Misericórdia do Porto, na rua das Flores.
Deve ter sido a dificuldade de acesso ao local, a parte mais alta do frontispício do templo, que esteve na origem da sua não destruição.
E os portuenses passaram a olhar para ele como um símbolo da esperança de que o fim do cativeiro estaria para breve.
Quem passava na rua das Flores, e muitos faziam-no com esse propósito, olhava lá para o alto, colocava a mão sobre o coração e entoava em surdina o hino da coroa.
E a hora do grito da independência chegou finalmente no dia 18 de Junho de 1808.
D. Domingos Ballestá voltou a chamar as autoridades e disse-lhes isto:
“O meu país está a levantar-se contra a ocupação napoleónica. Eu vou para lá para partilhar e colaborar nessa libertação. Vocês ficam entregues a vós próprios e só tendes duas opções: ou libertais vos soltando o grito da independência, ou sujeitais vos ao jugo de Napoleão “
Os portuenses não tiveram dúvidas. Correram ao campo da Regeneração, actual Praça da República, e ali mesmo fizeram ouvir o seu grito de independência.
Germano Silva,
in revista Visão
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