16/06/2025
“𝗦𝗘𝗥 𝗠𝗨𝗟𝗛𝗘𝗥𝗘𝗡𝗚𝗢 𝗝𝗔́ 𝗘𝗦𝗧𝗔́ 𝗙𝗢𝗥𝗔 𝗗𝗔 𝗠𝗢𝗗𝗔...”
Anastácio estava em viagem de trabalho há três dias. Era suposto regressar a casa naquela manhã, mas decidiu prolongar a estadia. Os compromissos profissionais já haviam sido cumpridos, mas ele mentiu à esposa, dizendo-lhe que a viagem duraria uma semana. Tudo porque queria aproveitar os dias restantes ao lado da sua amante — sem pressões, sem reclamações, sem a voz constante da esposa nem o barulho dos filhos.
A meio do percurso, ao volante de um carro alugado, Anastácio ia em direcção ao hotel da amante. Ao seu lado, sentado no banco do passageiro, seguia o seu chefe directo, o Sr. Mateus, homem reservado, de fala pausada, mais velho, que viera do estrangeiro para acompanhar os projectos em Moçambique.
O ambiente no carro era de silêncio confortável até Anastácio receber uma chamada.
— Olá, mulher gostosa e esbelta da minha vida... Mesmo que não acredites, sabes que és a minha esposa, certo? — disse, com um sorriso meio trocista na voz.
O chefe desviou ligeiramente o olhar, fingindo procurar algo na pasta sobre os joelhos. Não era tolo. Sabia bem que aquela conversa não era com a verdadeira esposa.
A voz feminina do outro lado ria, leve, envolvente. A conversa prosseguiu carregada de insinuações e cumplicidade. Anastácio, esquecido da presença ao lado, mergulhava no seu mundo de prazer e egoísmo.
— Estou a chegar, meu bem. Veste aquele teu vestido leve e não ponhas calcinha. Quero chegar e ir directo ao ponto. Amo-te. — disse antes de desligar.
Silêncio. O chefe tossiu discretamente e pousou a mão sobre o puxador da porta, como quem considerava abrir a janela para deixar sair o constrangimento.
Eram nove da manhã.
Trim Trim...
O telemóvel tocou novamente. Anastácio revirou os olhos.
— Quem me está a ligar a esta hora, pá...? — murmurou, irritado.
Olhou para o visor: Joana. A esposa.
Respirou fundo. Atendeu.
— Alô, Joana.
— Amor, como está a correr o trabalho?
— Vai andando... estão a ocupar-me muito por aqui. Nem tempo tenho tido para descansar. E aí em casa, tudo bem?
O chefe virou discretamente a cara para a janela, mas não podia deixar de ouvir.
— Sim, estamos bem. Os teus filhos querem falar contigo. — respondeu Joana.
— Papá, como estás? — disse a voz doce da filha mais nova.
— Oi, filhota. O papá está bem. E vocês, como acordaram hoje?
— Bem... mas temos saudades tuas. Quando voltas?
Anastácio engoliu em seco. O volante escorregou-lhe levemente das mãos suadas. O Sr. Mateus observava agora de esguelha, atento a cada pausa, a cada suspiro.
— Pai?! — insistiu a filha.
— Oi, filha... volto na próxima semana. Que querem que o papá traga?
— Papá, só queremos a ti. Mas podes trazer banana e batata. Aqui em casa acabou.
— Está bem, filha. O papá trará. Amo-te muito. Beijinhos.
Desligou.
Um silêncio denso caiu dentro do carro. Anastácio fixou o olhar na estrada, mas não via nada. O coração pesava-lhe no peito como um bloco de cimento.
— Filhos...? — disse o chefe, finalmente, com voz neutra.
— Sim... dois — respondeu Anastácio, com voz embargada.
— E uma esposa que espera por si... — acrescentou o Sr. Mateus, num tom calmo mas firme.
Anastácio não respondeu. O volante apertava-se entre as mãos. Sentia-se observado. Sentia-se julgado. E, sobretudo, sentia-se culpado.
O entusiasmo por ver a amante esfumara-se. A imagem daquela mulher, segundos antes desejada, agora parecia-lhe ridícula. Vazia. Fria.
Quem sou eu...?
Que homem é este que soube mentir à esposa... e falar com doçura à filha, enquanto conduzia ao lado do chefe, a caminho da amante?
Fechou os olhos por um instante.
— Que b***o eu sou... — murmurou, quase sem se ouvir.
A estrada seguia em frente. Mas dentro de Anastácio, tudo se despedaçava.
©Textos de Ângelo Alfredo, 2025™